Saúde
Um Natal para agradecer a vida
Pessoas que precisaram de internação para se recuperar da Covid-19 compartilham suas experiências e memórias
Reprodução -
Que 2020 será um ano inesquecível para todo brasileiro é algo indiscutível. Infelizmente, para muitos, ele foi marcado por perdas e dificuldades. Porém, para outros tantos ele será digno de agradecimento pelo bem mais precioso que cada ser humano tem: a vida. Quem carrega esse sentimento é o Luan, o Rodrigo e o Carlos. Todos eles precisaram de um leito hospitalar para se recuperar da doença que deixou 2020 sem abraços, a Covid-19. De perto, eles viram e sentiram o que um vírus invisível aos olhos é capaz de fazer. Passado o susto, na noite do dia 24 eles dividem mais uma coisa: a gratidão e a esperança de um futuro sem pandemia.
Luan do Nascimento, 30, é fisioterapeuta e natural de Parnaíba, no Piauí e mora em Pelotas desde 2016, quando assumiu uma vaga no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE/ UFPel). “Eu tive medo por saber tudo que podia acontecer comigo”, disse ele, enquanto falava da experiência da internação. Mesmo trabalhando na UTI Geral ele foi contaminado dentro do hospital, depois de ter contato com um paciente que a princípio não seria diagnosticado com Covid-19. Mesmo com a pouca idade e teoricamente fora do chamado grupo de risco, Luan precisou de um leito de hospital para se recuperar. Dor de cabeça, indisposição e febre foram os primeiros sintomas do fisioterapeuta que, em seguida desses episódios, já teve seu resultado confirmado através do teste.
Depois, a partir do oitavo dia, a falta de ar chegou e, com isso, a baixa oxigenação também. “Então percebi que estava agravando e procurei a UPA para uma assistência mais intensa”, contou. Depois de uma série de exames feitos no local a notícia que o profissional não queria ouvir se confirmou: ele estava sendo encaminhado para o hospital que trabalha, mas, dessa vez, como paciente. Foram sete longos dias de internação e junto com ela os anseios e as incertezas que a nova doença traz. “Foi uma experiência ruim pelo ponto de vista de sofrer com a doença, mas ao mesmo tempo exercitei a empatia e soube o que é estar do outro lado”. Ele destaca que o ponto positivo foi ter a companhia de colegas e amigos, por outro lado precisava ver muitos pacientes da sua ala piorando. E mesmo além de tudo isso Luan garante que conseguiu sair de lá um profissional melhor. “Eu amadureci, senti o que meus pacientes sentem”, completou.
Há mais de um ano sem ver a família piauiense, a doença foi encarada ao lado da esposa. Os planos eram para que os familiares viessem a Pelotas em junho e julho todos retornassem para Parnaíba, assim, Luan curtia as férias na terra natal. “A distância é muito ruim, mas necessária”, disse. Sobre o Natal, ele viverá o mais diferente de toda a vida. Em seguida que deu alta, começou a trabalhar na UTI Covid da Beneficência Portuguesa e vai ser por lá, praticando o ofício que mais ama, que passará a data. “Estarei celebrando a minha recuperação e tentando restabelecer a dos outros”. Para o novo ano, o pedido é que a população se cuide ainda mais e que respeite o distanciamento social, pois só assim será possível retornar ao velho normal ao lados das pessoas amadas.
“Eu jamais subestimei esse vírus, sempre usei máscara e cumpri com todos os protocolos”. É assim que o professor de biologia, Rodrigo Duval, 44, que é corredor de rua e pratica exercícios físicos, começou a entrevista, já emocionado. Porém, no final de outubro ele teve contato com um amigo que testou positivo para Covid-19. Com o propósito de evitar preocupações realizou um teste, mas como ele disse: “mal sabia eu que ele era um falso negativo”. Depois, o cansaço físico chegou, mas ele encarou como um estresse de final de ano. Em seguida, foi a vez da febre alta, então, procurou assistência médica e o resultado foi que 25% de cada pulmão já estava comprometido. Mas, pelos protocolos, ainda não era necessária internação apenas a medicação de praxe, como antibióticos e antitérmicos. Com a volta para casa chegou a falta de ar, a dificuldade de baixar a febre e a preocupação com a esposa que já apresentava os primeiros sintomas.
Com isso, o retorno para o hospital foi imediato. Segundo ele, o pior momento da luta que travou pela recuperação foi o anúncio da internação. “Eu entrei dirigindo e saí de lá na cadeira de rodas”, lembrou, com a voz embargada. Na oportunidade, os pulmões já estavam 50% comprometidos e “naquele momento começava a maior batalha da minha vida”. Rodrigo conta que o único pensamento era os filhos, Gabriela, Otávio e Júlia, e na falta que ele poderia fazer para eles caso o pior acontecesse. Internado por sete dias na Beneficência, o professor de biologia garante que conheceu verdadeiros anjos, que mesmo paramentados e em meio a uma internação solitária, foram carinhosos e compreensivos. A partir de agora, Rodrigo comemora a vida duas vezes, pois, segundo ele, dia 12 de novembro aconteceu seu renascimento, que foi quando soube que no próximo dia iria para casa. Na despedida do hospital não faltaram lágrimas, assim como na hora da entrevista, mas todas de alegria. “Todos eles ficaram aplaudindo no corredor enquanto eu passava, aquele momento era uma vitória minha e deles”, falou, relembrando a alta e o ato dos profissionais da linha de frente.
Para ele, o que fica dessa jornada de enfrentamento ao coronavírus é que as pessoas não devem se preocupar com tanta coisa, apenas em serem felizes. “Para 2021 paz e saúde, é isso que o mundo precisa”. Além disso, destaca que é necessário que os políticos parem de criar empecilhos e trabalhem pelo incentivo e aprovação da única salvação para essa doença: a vacina. Emocionado, e com pequena Júlia de apenas quatro anos, dando as caras na vídeo chamada para chamar atenção do pai ele se despediu pedindo que a população não deixe de se cuidar, pois só assim os beijos e os abraços retornarão, e ainda mais fortes.
“Eles disseram que foi um milagre”
Policial Militar aposentado e atualmente socorrista do Samu em São José do Norte, Carlos Veiga, 54, superou muitas expectativas, já que ficou intubado por onze dias na UTI do HE/ UFPel e se transformou no primeiro paciente que esteve em estado grave a dar alta na instituição. Ele conta que não sabe exatamente como se contaminou, mas relembra que os primeiros sintomas foram a falta de força física e o desânimo e, em seguida, a falta de ar. O diagnóstico aconteceu depois de um atendimento realizado em que ele fala que chegou ao hospital da cidade pior que o paciente que carregava. Por lá, ele ficou uma noite e um dia, mas com a piora precisou de um leito de UTI e acabou sendo transferido para Pelotas.
“E que bom que eu fui para aí”, disse, recordando do cuidado de todos os profissionais que lhe trataram. Da viagem ele conta que não lembra de nada, mas tem memória da chegada até o leito e de às 14h do outro dia chamar a equipe para dizer que mesmo com os aparelhos e medicações a falta de ar seguia. Em seguida, veio a notícia da intubação e uma vídeo chamada com a esposa e a filha para contar o que estava acontecendo. “Eu me mantive muito tranquilo o tempo todo, mas na hora que falei com elas a emoção veio”, falou.
Onze dias depois, o que não acontece para muitos, aconteceu para Carlos, a intubação não era mais necessária, já que o caso tinha evoluído conforme o esperado. “Lembro de estarem me dando banho. Eu fiquei muito assustado, depois retornei para um leito e veio a lembrança que eu estava em Pelotas por causa da Covid”, completou, falando da primeira memória depois de acordar. Após sair da UTI ficou internado por mais cinco dias na enfermaria e dia 15 de julho deixou o HE com muita comemoração, balões e emoção. “Eles disseram que foi um milagre”, recordou sobre o que ouviu dos médicos no momento de voltar para casa.
Desde agosto trabalhando normalmente ele segue se cuidando e pede para que todos não afrouxem os protocolos. Amante de viver um dia de cada vez, Carlos confessa que não gosta muito de mexer no passado, então, para o Natal o desejo é um churrasco. “Mesmo sem aglomeração a carne tem que sair, eu estou sempre pronto para uma festa”, brincou e se despediu, visivelmente torcendo para que tudo passe e as festas cheias de gente, danças e comilanças voltem a fazer parte da vida.
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